O irmão caçula da Esperança

Atualizado: 31 de ago. de 2021

I


“Não sabe que as estrelas tem poder?” Carol levemente riu com seu usual sorriso torto

Acenei que sabia e voltamos a olhar o céu...aquele fechado céu de cidade grande. Verdade seja dita, parecíamos estar escavando com os olhos aquelas nuvens densas, em busca de respostas - afinal, que melhor lugar para as procurar do que na própria matéria prima dos sonhos? Uma voz dentro de mim dizia que era inútil fazer aquilo ali, que teríamos que ir para outro lugar. Outra voz dizia que o ato, em si, era inútil e tínhamos que nos dedicar a outra coisa mais… valiosa. Não importa o que elas diziam, me segurei ao comentário de Carol.

Apesar das nuvens pesadas que as ocultavam da gente, bem sabíamos que existiam milhares de estrelas brilhando intensamente por trás. Sabíamos porque nos enchia de esperança; na verdade, apenas acreditávamos que fosse assim… algumas vezes me sentia como uma criança que crê fielmente na existência de seres místicos de contos de fadas… o sentimento deriva da mesma energia jovial que colore o mundo com tons extraordinários. A mesma energia que está presente em todo ser consciente, embora muitas vezes calada por outros assuntos que a humanidade julga serem mais importantes.

Nós também sabíamos que aquelas luzes, ocultas pelas densas nuvens que sobre ali pairavam, eram muito provavelmente de objetos que não estavam na mesma direção da qual parecia. Sabíamos que tais corpos celestes estavam a uma distância ridiculamente absurda para que a luz por eles emitida demorasse um considerável tempo até chegar à Terra e, consequentemente, aos nossos olhos. Mas preferíamos acreditar que não, que na verdade estavam bem ali. Tal ilusão simplificava a vida e, embora tivesse um potencial enorme de nos enganar, tornava tudo mais confortável. Afinal, que outras infinitas ilusões o ser humano também costuma fabricar para simplificar sua realidade, não é mesmo?


II


Naquele momento, especificamente, encontrava-se insegura.. não era um bom momento para sua autoimagem deixar de assumir a visão de uma deusa para dar espaço à uma fracassada. Mas não estava ali para trabalhar com hipóteses, e sim com fatos… resignava-se em assumir não poder mudar conscientemente os misteriosos impulsos do seu inconsciente que condicionam tais oscilações e lentes sob as quais seus olhos enxergam a si e, consequentemente, ao mundo. Não importa o que sua terapeuta falava a respeito da insistência no tratamento, parecia que cada vez que tentava puxar as rédeas da psique, mais sua mente tornava-se inalcançável.

Apática, repetia o processo que seu pai a ensinou há muito tempo atrás. Limpou o suor das mãos no avental de couro e as usou para segurar o tenaz com o intuito de auxiliá-la a tirar aquela grande chapa retangular de aço semi-inserida na fornalha e colocá-la rapidamente sobre a bigorna. Rapidamente tirou a ferrugem dos dois lados da chapa com quatro movimentos precisos de sua escova de aço e passou a golpear a porção incandescente da peça com seu maior companheiro: seu velho martelo de bola, levemente customizado para que atendesse às suas necessidades. “Uma martelada, duas, três e vira a chapa perpendicularmente; uma, duas, três, quatro, vira paralelamente; uma, duas, três, vira; uma, duas, três,...” Repetia mecanicamente em sua mente enquanto mantinha perfeitamente o ritmo apressado para aproveitar ao máximo aquele breve momento em que poderia moldar a porção incandescente da chapa. Quando a ponta, agora mais ou menos triangular, do aço começou a esfriar, colocou de volta no forno mais uma vez.

Espreguiçou-se. Sua lombar começava a doer. Notou que, conforme envelhecia, forjar tem ficado cada vez mais e mais doloroso e fisicamente desgastante. Algumas vezes tinha saudade daquela energia e espírito de jovem inconsequente que poderia ficar o dia todo numa forja e ainda manter-se insatisfeito, querendo mais trabalho. Fitou a barra de aço que constituiria em breve uma bela lâmina e ponderou a sua velha reflexão… como as pessoas pagavam tanto por uma espada, sendo que seu conteúdo original e bruto é tão simples quanto um pedaço qualquer de aço? Pensava isso enquanto lentamente transacionava seu olhar da barra na fornalha para a espada que ficava suspensa e exposta sobre a porta de entrada daquele pequeno ambiente onde a mágica acontecia.. sua primeira espada, Afrodite - aquela que possibilitou inúmeros sonhos e fantasias medievais ora sangrentas ora românticas durante sua juventude. Encontrava-se já um tanto quanto desbotada, dada à fumaça da fornalha e da inevitável poeira que levantava durante seu trabalho… mas continuava religiosamente presente, sempre carinhosamente assistindo sua mãe trabalhar, que agora pegava novamente a barra de aço para trabalhá-la.

Passou-se uma manhã árdua na forja e encontrava-se agora descansando um pouco, após sua refeição. Visualizava e refletia sobre Afrodite que, aparentemente, não só capturou sua atenção naquele momento como fincou-se em sua memória. Como gostaria que as coisas voltassem a ser como eram antes; seu pai vivo ao seu lado, seus amigos, época de paz… hoje deseja apenas, pois cansou-se de rezar. Voltou à forja, e, na ponta dos pés, retirou Afrodite do suporte de madeira acima da porta. Empunhou-a e balançou delicadamente para relembrar o peso da espada.. era leve... leve até demais. Finalmente, elevou aos seus olhos e viu fracamente reluzir sua face na triste lâmina de aço cega que, além de empoeirada, estava também desgastada pelo tempo e ocasional umidade.

Trouxe a espada para a sala de estar, apoiou-a contra a parede no pequeno vão ao lado do seu sofá de couro, cujos velhos pés de carvalho precisavam ser em breve trocados. Sentiu frio. Foi até a lareira da sala, carregou alguns troncos de madeira que estavam dispostamente colocados para tal finalidade e finalmente a acendeu sem escorrer sequer uma gota de suor. Olhou para o relógio e concluiu que em breve seu marido chegaria e, portanto, era hora de banhar e arrumar-se.

A transição das ferramentas e da fornalha ao vestido e às jóias era algo que sempre capturava sua atenção. Mesmo com essa mudança, mantinha-se apática decorrente do seu estado de espírito; tudo era feito mecanicamente como constava em seu ritual diário. Vestida com seu belo vestido transpassado vermelho, voltou pisando descalça nos impecáveis e frios do chão da sala, onde finalmente sentou-se no sofá.

Enquanto aguardava Rafael, não tirava os olhos de Afrodite.. aquela espada, mesmo que imperfeita aos seus olhos críticos do presente - a lâmina era realmente mais grossa perto do punho, afinava no corpo e retornava àquela espessura perto da ponta -, era como uma bússola, uma referência que a orientou por tanto tempo durante aqueles anos de profissão -- profissão essa que fabricava armas de guerra e também ornamentos dos mais belos que refletiam a delicadeza da alma da criadora -- e desafios a ela associados. Nunca se sentiu só, mesmo diante de momentos de incerteza, sabia que podia ser amparada pela sua velha companheira. A porta finalmente abriu-se e uma voz tão quente e acolhedora quanto a lareira ainda acesa envolveu a sala.

“O que essa coisa velha está fazendo aqui?” Em seguida, uma risada amiga e controlada por detrás daquela grande, mas bem cuidada, barba castanha.

“Decidi trazê-la para nos fazer companhia hoje..” Ela virou com um meio sorriso em direção ao marido -- Era o máximo que conseguia sustentar naquele momento.

“Você sabe que eu estava perguntando à Afrodite, não?” Disse, rindo novamente, agora dirigindo-se à sua esposa.

Dessa vez ela teve que se contentar em abrir um sorriso todo. Não tinha jeito, pensou, somos feitos um ao outro.

“Aqui está, para você” Convidado pelo seu sorriso, Rafael aproximou-se à sua frente e estendeu a mão mostrando um lindo e reluzente rubi “Matheus achou hoje e disse que era a sua cara… ou seu cabelo”

Os olhos verdes dela brilharam, não por aquela pedra, mas pelo gesto… de fato, combinava com seus cabelos ruivos. Por um momento, esqueceu-se de sua anedonia e sentiu felicidade, ainda que extremamente passageira.


III


Chego ao restaurante e sento-me na única mesa disponível, próxima ao caixa. Ao meu lado esquerdo, um homem quieto com seu notebook está escrevendo algumas coisas num Google Docs. Dou uma olhada por cima do conteúdo, parece ser um escritor ou algo do tipo… “Coitado”, eu penso “Se ele estiver dependendo disso para viver, está ferrado”. Lembro de abrir o meu notebook também, porque preciso olhar meus emails e otimizar meu tempo. Falando em otimizar, faço contato visual com o garçom e o chamo. Peço meus três pedidos que sei de cor: uma parmegiana, uma água sem gás e um éclair. Peço para o éclair vir depois do que a refeição e o garçom me pede para pedir depois, porque eles estavam sem no momento. Julguei-o incomodado com o meu jeito prepotente de pedir as coisas e com a necessidade de negar-me algumas coisas, mas enfim.. não dá para agradar todo mundo e se ele tem um problema com isso, bom, problema dele. Com o notebook aberto, digito minha senha enquanto direciono minha atenção agora a duas mulheres que falavam de uma maneira alta sobre as banalidades de suas vidas. Algumas pessoas tem muito tempo para pouco conteúdo, não é mesmo?

Enquanto o computador inicializa, minha água chega e prossigo para beber um pouco. Em seguida, aproveito para olhar de canto de olho para o homem ao meu lado novamente. Ele agora estava procurando alguma conversa no Whats enquanto seu deplorável e risível texto estava exposto aos meus olhos.. o que aquilo está movimentando no mundo? Qual capital aquilo está gerando? Que desperdício de tempo.. Ao lado esquerdo daquele homem, na mesa adiante, dois empresários discutiam de boca cheia - com a parcimônia e politicagem que essas pessoas têm que ter - sobre negócios. Coloco minhas mãos em uma maneira reflexiva enquanto, agora com o pescoço levemente virado, percebo que um parecia esdruxulamente tentar impor-se ao outro, pelo seu tom de voz, postura, celular na mesa e tudo mais. O outro, parecia estar mantendo um certo ar de calma, relativamente defensivo, pernas cruzadas, mão esquerda pendente no ar enquanto come.

Abro o navegador, meu computador automaticamente conecta-se ao Wi-Fi daqui. Digito o endereço do meu email e aguardo carregar. As mulheres agora trocavam recomendações de restaurante.. uma parecia que competia com a outra vendo qual visitou o restaurante mais chique. Uma delas olha para mim com um tom inquisitivo e eu percebo como estava escancaradamente olhando pra elas, minha sutileza foi inconscientemente desarmada enquanto me perdia na futilidade daquele lugar. Viro a cara novamente para o notebook, dou uma olhada na minha caixa de entrada e bem quando abriria o primeiro email, sinto o celular vibrar no meu bolso. Suspiro. Pego e olho que alguém precisava de algo que não era pra ser preciso naquele momento exato. Tsc tsc tsc. O homem ao meu lado esquerdo me olha com o seu canto de olho com um sorriso de deboche... ele acha que eu não o vi, e continuo fingindo que não. Era discreto afinal, e não podia deixar-me abalar pelo julgamento alheio das pessoas daqui.

Finalmente respondido o celular, minha parmegiana chega. Fecho o notebook, guardo na mochila e começo a comer. Estava bom. Meio caro para o preço, mas acho que eles devem pensar em cobrar demais pelo ambiente daqui. Quase que satisfeito, peço novamente meu éclair e faço questão de pedir com o mesmo tom ao mesmo garçom para que ele fique mais incomodado ainda. Não sei se ele realmente ficou, mas gosto de pensar que sim. A eficiência das vacinas sendo discutidas à minha direita, os empresários discutindo sobre contas e o “escritor” lá novamente em seu celular - não comia a salada que tinha na mesa e também não continuava a escrever. O que ele estava fazendo ali? Decido ver a tela do seu computador a fim de ver o progresso que atingiu nesse meio tempo que eu estava aqui. Começo a ler rapidamente o primeiro parágrafo na tela: “Chego ao restaurante e sento-me na única mesa disponível, próxima ao caixa. Ao meu lado esquerdo, um homem quieto com seu notebook está escrevendo algumas coisas num Google Docs”. Estaria ele... O éclair chega e volto o olhar à minha sobremesa com o cenho franzido. Sinto-me observado, julgado, constrangido. Não ouso o olhar mais de relance porque eu sei que nossos olhos irão se encontrar.

Levanto-me, pego minha mochila e vou pagar a conta. No caixa, direciono um olhar final para aquele homem e lá estava ele com um meio sorriso na cara, totalmente imerso escrevendo com os olhos fixos no notebook... provavelmente escrevendo sobre mim. Teria ele visto esse último olhar? Teria ele escrito esse último pensamento?


IV


“Com licença, moço, qual é a música que está tocando?” Perguntou ao garçom que passava por ali, o atraindo à mesa como se um imã o puxasse.

“Hm.. não sei, vou conferir”

Gostava de transparecer elegância nos raros momentos que parava para tomar algo em algum café gourmet da cidade. Não sabia nem se realmente gostava de jazz… na verdade, não sabia nem se o que o que estava sendo tocado era jazz para julgar se gostava ou não do estilo daquela música que supunha ser jazz. Tinha que ser jazz. É isso que as pessoas elegantes ouvem nesse tipo de lugar, não? Jazz...

Lembrou-se daquele dia em que encontrava-se chapada no sofá.. olhando o mundo rapidamente transcorrendo ao seu redor enquanto seu metabolismo desacelerava. Sentia-se diferente, especial.. como os cafés gourmets que tocam jazz em meio àquela cidade caótica envolta por aquele clima nublado de inverno… lembrou-se também que tinha que trabalhar.

Enfiou o restante do café com leite pela goela e seguiu para o caixa. Pagou com o cartão de crédito mais bonito da sua carteira, reservado para tais ocasiões.. gostava de deixar aquele cartão reservado para aquilo pois, ao ver a sua fatura, as recordações dos ambientes chiques consolavam parcialmente a angústia dos custos que materializavam-se à sua frente.

Entrou, chave na ignição, ligou o aplicativo de motorista no celular, olhou-se no seu pequeno espelho de bolso. Estava bem aquele dia.. bem elegante. Sorriu. Seu sorriso também. O aplicativo apitou; chamava sua primeira corrida e anunciava o momento de fechar o espelho. Fechou, manobrou o carro para fora daquela vaga e mandou-se na direção do seu cliente. A dinâmica da realidade fê-la lembrar do clima. Estava feio, cinzento e garoando. Não gostava. Somado a isso tinha também o trânsito que entupia praticamente todas as ruas da cidade. Isso odiava ainda mais “O que esse vagabundo está fazendo nessa velocidade?” Pensou enquanto via os carros das outras pistas fluirem muito mais que os da sua. Não aguentou. Buzinou. Xingou. Quando o motorista da frente tornou a acelerar, fez sua usual reclamação sobre o motorista brasileiro (Como gostou de dirigir nas ruas americanas e europeias!) ao passageiro.. o passageiro que não existia. Olhou de relance o retrovisor interno para certificar-se. Corou-se. Sorriu e seguiu. Ocupou-se em pensar como corrigir os problemas da cidade, à medida que apareciam: buracos na rua, trânsito, praças abandonadas.. era tudo tão simples! Como os políticos poderiam ser tão ignorantes.. ou melhor, tão corruptos. Zangou-se. Voltou à realidade e o clima a zangou mais ainda. Começava a fermentar ódio. Por que aquele maldito teve que trocá-la por outra pessoa? Rangeu os dentes e curvou-se levemente em direção do volante, com braços um pouco mais rígidos que anteriormente.

Foi tudo isso que sentiu até sofrer o tranco que a jogou para além do seu para-brisa. Colisão frontal.. seu carro foi atingido em cheio, logo no dia que esquecera de colocar o cinto - algo tão elementar. Mas não importava mais. O que importa é que agora estava momentaneamente em alta velocidade suspensa ao ar e brevemente estaria com a cara arrebentada. Assim como aquele dia no sofá, o mundo reduzia a sua velocidade novamente.. num slow motion tão intenso que parecia quase um stop motion. “É isso que significa estar prestes a morrer?” Escutava à distância um contínuo soar melódico de um clarinete. Sorriu mentalmente com a capacidade da mente de divertir-se mesmo nas situações mais extremas. Era o que restava, afinal. Ao clarinete, juntavam-se agora os essenciais piano e bateria, gradativamente aumentando os seus respectivos volumes. Mas algo a incomodava… seus olhos já não mostravam à sua consciência a rua em alta (ou melhor, agora, relativa baixa) velocidade. Sua cabeça estava em outro lugar, num concerto cuja audiência só ela ocupava. Tentava ver o que estava em dissintonia e - bingo! - viu aquele baterista descontrolado no fundo. Ela percebeu que ele a olhava fixamente. Por que era tão arrogante? Queria soar mais alto do que os outros em um ritmo frenético, embora constante. E o pior é que estava conseguindo: mantido seu ritmo, o volume da bateria gradativamente aumentava. Finalmente, na duração de um segundo, ergueu suas baquetas aos céus e o trio como um todo parou. Sem tirar seus olhos dela, uma batida violenta nos pratos; o mundo adormeceu, e ela tornou-se estrela.


V


Quando me olhei no espelho, sorri de orgulho. Depois de uma eternidade sendo um magrelo qualquer, vítima de bullying e rejeições, finalmente alcancei o corpo que sempre sonhei. Estava satisfeito? Óbvio que não, isso é vocabulário que só frango tem no dicionário. Eu queria mais, tudo uma questão de pensamento: não importa o que acontecesse, daqui pra frente é só pra frente. Um último sorriso antes de sacar o celular do bolso e ver que horas eram. Não gostava muito de chegar atrasado nos meus encontros, mas também não gostava de chegar muito cedo. Era uma questão de equilíbrio; que adianta tentar ser bonito mas não ser descolado?? Camisa cinza justa, jaqueta de couro preta, calça jeans clara, cinto de marca, tênis preto - Esse era o MEU estilo, apesar de uns otários tentarem copiar.. ficavam feios igual. Que adianta tentar ser descolado mas não ser bonito??

Com a chave do carro na mão, peguei a carteira que ganhei de aniversário e - mais uma olhadinha no espelho - era isso, cabelo cortadinho, sorriso de galã e se eu pudesse, certamente veria a beleza do meu perfume importado estampado no vidro. Estava pronto, finalmente, para começar a viver. Agora é só pra frente, repeti a si e fechei a porta de casa, em direção ao elevador.

No carro, antes de sair da garagem, abri o seu instagram mais uma vez para ver suas fotos no feed. Essa estava boa.. essa nem tanto, relembrei-me de sua testa enorme... deve ter sido distorção da câmera, ninguém é capaz de ter uma testa tão grande. Meus pensamentos de repulsa são interrompidos por outro tão intrusivo quanto: E mesmo se tivesse, os peitos compensariam. Sorri novamente ao vê-la de sutiã, naquelas fotos conceituais preto e branco que, a meu ver, só servem para atiçar homem. Era isso, o predador está saindo da caverna atrás da presa.

Olho para o pequeno relógio delicadamente colocado no meu pulso, estou há 25 minutos lhe esperando. Não acredito que saí tão cedo de casa para isso… chamo o garçom e peço meu primeiro drink. Abro o whatsapp e pergunto onde estava. A mensagem nem chega, deveria estar com o celular descarregado ou desligado. É muita burrice ou descaso para uma pessoa só. Eu sabia que essa coisa de encontros online não era para mim, minha amiga tentou me avisar. Após tomar meia taça de Thackeray, vou ao banheiro jurando que se não lhe encontrasse quando eu estivesse de volta, iria para casa.

“40 minutos de atraso…” Olhei no relógio do carro “Não deve ser muita coisa.. já esperei mais tempo por mulheres mais feias e outra... “ Interrompi momentaneamente meu pensamento para olhar sobre meu ombro e ver se o carro estava bem estacionado. Estava sim. Saindo do carro, retomei “e outra, o tempo esperado vale a pena por uma pessoa como eu. Não é como se eu fosse qualquer um que ela conheceu no Tinder.” Finalmente estava chegando e comecei conscientemente a pisar da maneira mais descolada possível, para adicionar um charme a mais. Ela era loira.. gostava de batom vermelho… vejamos… pergunto ao maitre que estava ali como um poste se tinha alguém esperando - me esperando. Ele olhou-me confuso. Nem pra isso esses caras prestam, meu Deus. Ignorei, entrei. O ambiente era agradável, se não fosse pelo lugar extremamente lotado. Nem parece que era pandemia mais, todo mundo cuspindo na cara do outro como um monte de porcos. O que esses porcos estavam fazendo no meu lugar? Será que é tão fácil ser rico hoje em dia? Caminhava pelo único corredor que tinha para caminhar, mas não estava lhe encontrando em nenhuma das mesas que cercavam aquele corredor. Para evitar que desse meia-volta e soasse perdido, fingi estar procurando o banheiro nos fundos do bar e entrei.

Como não estava a fim de mijar, simplesmente entrei na cabine e fiquei sentado no toalete, pensando no que iria fazer. Tive a ideia de chamá-la por mensagem, ver em que mesa estava. Não gostava de fazer isso porque parecia que novamente estava perdido, mas enfim.. melhor que ficar desfilando por aí. Liguei o celular que estrategicamente deixo desligado para ninguém encher o saco e vejo que suas últimas mensagens eram perguntando onde estou… há uns 20 minutos atrás. Ela tem que estar aqui.

Saí da cabine, olhei-me novamente no espelho e sorri com a minha beleza. Saí do banheiro de peito estufado e estava pronto para tê-la.


VI


Era mais uma noite quente em que passava só eu e vocês.. essa é Sol, essa é Lua, essa é Vênus e essa é Marte… prendas de mamãe. Levantei meus olhos morgados para o céu, em tua procura.

“Quais delas seria tu?”

Voltei os olhos para minhas pedrinhas novamente. Mamãe costumava dizer que pessoas em geral valorizavam mais a Sol, mas eu sempre achei a Lua mais bonita. Sempre quis te perguntar - embora agora já acho que não consiga - como as coisas do céu são o reflexo perfeito das coisas que estão enterradas? As pessoas temem as profundezas da Terra porém passam a noite admirando as estrelas.. mal elas sabem que o céu reflete a terra, não somente a superfície; tudo que está embaixo também.

Entendo agora porque te enterraram debaixo da terra, mamãe… é para que eu consiga te ver sempre que olhar o céu estrelado, não importa onde eu esteja.


VII


...

(every nigga is a star)….

every nigga is a star….

Every nigga is a sta--

“GABRIEL!!” Mais duas batidas violentas na porta “GABRIEL PORRA, ABRE A PORTA AGORA!!!”

Who will deny that you and I and every ni--

“Gabriel caralho...” Mais três batidas, agora um pouco mais resignadas “Por que você finge que não está ai??” Um choramingo por detrás da porta denunciava a renúncia dela.

enfim nasceu a temida estrela.

“gabriel, por favor…” uma última batida, mais fraca que todas

(hit me)

(“por que…”

(afinal, como uma estrela é formada?)

parece-me um pouco o mesmo que o processo geológico de formação de minérios.., cê sabe né, na terra?

Uma nasce a partir da reação nuclear de seus constituintes; a outra, por intensas forças externas de temperatura e pressão.

A grande questão é o que difere o processo de formação de uma estrela e de um minério de um embrião, afinal?

esse não é também uma resultante de forças externas e reações e moldes internos?

(seria apenas a arbitrariedade humana?)


VIII


“Porque eu realmente não vejo problema nisso.“ Limpou as cinzas da sua camisa justa preta, a fim de mantê-la intacta. Depois de uma baforada, continuou “Cada um sabe que porra é melhor para si, inclusive se estamos falando de dois adultos.“

Luísa, sua bela sobrinha, escutava altamente atenciosa no exterior e um pouco entediada no interior. Estava acostumada com a intromissão de seu tio na sua vida pessoal...

“Mas tio, meu pai imp…”

“Foda-se seu pai, foda-se tudo que ele pensa. A vida é sua acima de tudo.”

... e também com todos aqueles xingamentos que eram por ele automaticamente lançados aos ares quando a menção de seu irmão surgia em alguma conversa. Eram irmãos muito próximos, até que os dois se apaixonaram por uma mulher e essa mulher se apaixonar por apenas um deles.

Luísa teve que segurar a respiração por um instante enquanto a fumaça pairava sobre a sua cara.

“E outra, você mesma diz que o cara é um canalha.. você não pode ficar vivendo essa vida porque seu pai acha melhor”

Luísa apertou seus olhos, realçando as suas tonalidades claras… eram as mesmos de sua mãe; mas possuíam um defeito: a forma paterna. Esse último detalhe fez o tio perder esse breve encanto momentâneo pela sobrinha e voltar à realidade

“E então, o que realmente pensa em fazer agora?”

“Eu penso…” Hesitou “Eu penso em talvez terminar o relacionamento.. até porque não estou feliz nele.”

Ele sorriu.

“Ei, psiu” Disse virando e estendendo o braço com a mão e dedo indicador também estendidos em direção (e quase que tocando na camisa preta) do garçom que por ali estava “Me vê mais um cognac.. e para a moça, o vinh-”

“Não precis-” Tentou interromper-lhe, mas tudo que conseguiu foi que ele limpasse a garganta e continuasse

“O vinho branco, o mais caro”

O garçom prontamente mandou-se em busca das bebidas e o tio voltou a sua cara para Luísa. Ele estava satisfeito. Relaxou as costas e, abrindo um pouco as pernas, deslizou o cóccix para frente de uma maneira que sua cabeça quase tocava a parte superior da cadeira em que sentavam.

“E depois?”

“Depois… depois não sei” Concluiu.

Luísa era uma pessoa de poucas palavras - não porque odiava falar; na verdade amava comunicar-se.. justamente por isso escrevia tanto - pois sua voz grossa fez com que fosse ridicularizada tantas vezes ao longo de sua adolescência, tanto por colegas quanto por familiares (direta e indiretamente), que adquiriu certo trauma de falar com os outros. Não dizia nada além do necessário. O tio suspirou impacientemente.

“Como assim não sabe? Por que finge ser tola comigo mulher” Deu uma risada forçada prolongada e relativamente alta. Controlando-se mais uma vez e mantendo a calma, arrumou levemente sua postura e sorriu “Todos sabem o que querem no fim das contas”

“Talvez eu tire um tempo para mim, para pensar”

“Mas não acha isso um desperdício? Está no ápice da juventude e passará seu tempo “pensando”?” Gesticulava aspas no ar “Uma mulher como você, nessa idade e, mais importante, com essa beleza, não deve passar seu tempo em casa “pensando”. Você tem que aproveitar a vida enquanto ainda consegue.. depois é uma vida eterna de boletos e chatices. É só então que você parará de pensar e irá aproveitar o inferno que é ser velho”

Chegaram o cognac para ele e o vinho para ela - ela agradeceu, ele não; foi direto ao copo e tomou um gole.

“Me fale então o nome dele” Sorriu novamente

“O nome de quem, tio?” Ao longo da conversa, Luísa alternativa o olhar para a taça, para a saída, para os olhos do tio.. sem realmente prestar atenção em um deles.

“Você sabe.. do seu próximo amante” Riu levemente e deu outro gole.

Luísa corou-se, virou os olhos fixamente para o tio, como se ele tivesse visto em sua alma o que tinha tanto se esforçado para esconder do resto do mundo.

“Tio, por favor, fale mais baixo”

Ele subiu a postura mais uma vez e inclinou-se em direção dela.

“Não mude o assunto, querida” Em um tom mais baixo, porém gradativamente aumentando.

“Eu não tenho.. um próximo amante, tio” E foi em direção ao vinho restaurar um pouco sua calma

“Não mesmo?” Deu uma cutucada de leve com o pé direito na coxa direita descoberta de Luísa” Eu sei quando você mente pra mim, em..”

Ficou mais nervosa ainda. Automaticamente recolheu as pernas e as cruzou, empurrando o pé do tio para longe. Como ele sabia?

“Não! Eu realmente não tenhp!” Elevou a voz, mas sem gritar. Sempre foi ensinada por sua mãe que mulheres como ela não deveriam gritar.

O tio deu uma risadinha de leve mais uma vez. Olhou ela fixamente.. primeiro sua testa e depois deslizou o olhar a seus olhos, a seu nariz e a sua boca. Parou um pouco para apreciar melhor o que via. Voltou então aos olhos dela, os quais estavam agora novamente voltados para a saída ou a procura de alguém.

“Pois permita-me contar uma história sobre o que todos homens pensam de uma jovem mulher, como você, que vive como se tivesse morr-”

“Garçom!” Ela chamou quando finalmente fez contato visual com um deles “A conta, por favor” Botou bastante ênfase no por favor.

Implodiu raivosamente por dentro. Como essa puta tinha coragem de interromper sua fala -- interromper para querer ir embora, sem ao menos consultar a sua opinião. Visualizou em sua mente agarrando-lhe seus finos braços com força e gritando com ela que era ele quem decidia o momento de ir, não ela. Ele quem iria pagar a conta, não ela. Ele quem estava ditando as coisas, não aquela vadia.

Tudo isso estava contido naquele suave reluzir dos olhos de seu tio, que agora recuava-se lentamente em sua cadeira, finalmente encostando a lombar e o dorso no encosto. Ela o analisava com receio de ter feito algo brusco. De fato, sabia que fizera. Mas sentiu que era necessário naquele momento. O tio finalmente sorriu com uma leveza, sem perder sua compostura por um segundo.

“Se eu soubesse que você estava satisfeita, não teria pedido o vinho, querida”

“Lembrei na verdade que tenho compromisso com meu pai”

Foi como a última facada no seu coração. Trocado pelo irmão, mais uma vez. Dessa vez não conseguiu manter a sua postura descolada - Empurrando violentamente a cadeira para trás com as costas, levantou bruscamente da mesa e


IX


Mais uma noite eu a via da arquibancada. Knockout. Venceu mais uma luta. Era belo como eu a observava comemorar, com aquele suor no rosto e uma cara tão doce que totalmente contrastava com a brutalidade com que lutava até então. Eu sempre vi no boxe uma poeticidade, mas foi no estilo dela que eu encontrei a verdadeira arte. Mas quem sou eu em meio dessas centenas de fãs que comemoram freneticamente pela sua vitória? Ela, um, tudo. Eu, vários, nada. Apesar disso, eu sabia que era o único que conseguia ver que por detrás daquela máscara, havia um centro enigmático, um certo profundo mistério.. de natureza divina e eterna. Eu sabia que ela não se resumia àquilo, como seus outros fãs queriam. Nós, dois, sempre.

“Eiiiiii, me passa aí, delegado”

Virei indagando o ar, minha visão já um pouco desconexa. Catarina estava ali com o braço esquerdo estendido em minha direção, com os dedos prontos para receber o baseado. Eu, como um bom amigo, a obedeci.

“Está apagado, cabeção” Ela colocou o cigarro na boca e riu “Você nunca aprende, né?”

Olhou para baixo e acendeu. Depois de uma tragada disse acenando com a cabeça em direção à televisão da sala

“Essa Luciana luta pra caramba, né?”

“Demais..”

“Quanto será que ela ganha?”

“Não sei.. só sei que queria estar envolvido em seus braços agora”

Catarina riu mais uma vez “Para ela te dar um mata-leão??”

Eu ri também. Gosto bastante de Catarina e do seu jeito, como ela torna tudo mais leve. Mas gostava mesmo de Luciana, afinal, eu era o único capaz de entendê-la.

“Pode ser também..” Sorri, despedi-me de Cat momentaneamente e voltei para a arquibancada.

Agora todos retiravam-se e ela permanecia no ringue sorrindo e comemorando. Estávamos ficando a sós. Ponderei que outras pessoas também tentaram desvendar seus segredos.. aqueles que se perderam em pura ganância de desvendar aquele mistério.. aqueles que tentaram e frustraram-se em não descobrirem nada (porque falharam em explorar o suficiente)... aqueles que, desgastados de procurar, simplesmente retiraram-se, desgastados, cansados…

Tossi uma tosse bem pegada. Cat ficou assustada e me chacoalhou

“Você ta bem, Thom??”

Continuava a tossir, tosses pegadas e longas. Com os olhos lacrimejando, finalmente respondi um “Estouuu” bem minguado. Expliquei que o ambiente claustrofóbico do inconsciente de Luciana deixa-me ansioso. Tinha medo de adentrar e não sair mais.. Cat iria me zombar naquele momento, mas acho que ela preferiu respeitar minha brisa. Talvez ela também tenha tentado descobrir os segredos de alguma Luciana e frustrou-se com o resultado.


X


As pessoas sempre acham que as estrelas são lindas. Nunca estiveram tão erradas.

Talvez por influencia do cartesianismo ou por qualquer outra linha de pensamento que esteja presente na produção de conhecimento atual, tendemos a separar e categorizar coisas, a fim de melhor compreendê-las. Na verdade, Descartes foi um exemplo; Aristóteles já prezava por isso e muito provavelmente qualquer ser humano também, sem utilizar palavras rebuscadas filosóficas, já separava em pelo menos duas categorias: o que é seguro e o que é perigo. É algo tão enraizado na nossa mente que quase arrisco em reduzir à insignificante a influência ambiental no desenvolvimento do pensamento. Mas nada é puramente genético, no final das contas.

O problema de não pensar sobre a sua forma de pensar são os viéses que nos sujeitamos, sem ao mesmo conhecê-los. Na nossa saga de categorizar o universo, muitas vezes separamos radicalmente duas coisas que na verdade são íntimas. Em uma gaveta colocamos o bom; em outra, o ruim. Sacrificamos o quantitativo para ter bem nítido o qualitativo e, mais uma vez, obtemos infinito sucesso em simplificar a realidade e criar ilusões com as quais nos contentamos o suficiente para então limitar a nossa experiência e ficar com um sorriso no final do dia.

É o velho caso da questão kantiana sobre a mentira. Você acha que é ético mentir para seu marido ou esposa sobre você ter causado a morte de seu filho? Não? Então deveríamos prezar pela verdade. A verdade, na verdade, é boa. Mentir é ruim. Verdade cria estabilidade, segurança, relações honestas. A mentira, o contrário. Porém e se você tivesse que mentir para o capeta para salvar a sua família? Seria errado da mesma forma..? A conclusão a que chegamos é que, não basta analisar uma ação isolada, deve-se analisar o contexto. Isso é trivial para qualquer um que tenha que lidar com essas questões rotineiramente, mas talvez não tão óbvio para outras pessoas que não tenham tanto contato com esse exercício -- e muito pior quando percebemos que, mesmo acostumados, ainda nos encontramos vítimas dessa mesma questão em diferentes aspectos da nossa vida…. aspectos que classificamos distintos aos daquele que representam os típicos problemas morais do cotidiano.

Pois bem, a grande falha das pessoas que acham as estrelas lindas é que elas falham em considerar o contexto. As estrelas não são naturalmente belas, mas dentro do contexto da escuridão, tornam-se belas. Ora, o céu negro da noite é, portanto, essencial para a beleza das estrelas… quem é que repara nas mesmas (que estão relativamente no mesmo lugar) durante o céu do dia? As pessoas não gostam das estrelas em particular, elas gostam do conjunto. Da paisagem. Distinguem o céu noturno das estrelas e focam apenas nelas, sem perceber que o contexto é tão importante quanto o detalhe para compor tamanha beleza. Da mesma forma que se um ponto negro, obscuro e opaco, - relativamente fixo no céu claro do dia - seria tão interessante quanto. Da mesma forma que um pequeno pedaço de cobre seria muito mais valorizado se pudesse ser apenas encontrado em um mar de ouro.

Existem teorias (bem convincentes, em minha opinião) de neurociência comportamental que tentam explicar porque nós somos assim. Mas não vamos nos ocupar em estragar a poeticidade da vida com racionalidades relativas que muito provavelmente cairão por terra daqui a um século. Vamos focar em algo mais subjetivo, universal e eterno: a escuridão é essencial para o brilhar da estrela.


XI


“Ora Catarina, não queres ser um comigo.. minha própria α UMi B?” Ele finalmente parou de me encarar e voltou sua visão para o céu.

“Não, te repudio, na verdade.”

“Como és tola..” Ele volta seu olhar incandescente em minha direção “Não sabe que eu sou o próprio Deus em que tudo se referencia? Tudo, inclusive, você?”

“Você só é fruto da minha imaginação, nada mais que isso.”

“E mesmo assim, o suficiente para ser tão presente em sua vida.”

Comecei a levantar do chão, farta daquela conversa de sempre. Ele, em pé, empurrou-me com força de volta ao meu lugar com a sola do seu sapato polido. Nos encaramos fixamente mais uma vez. Por detrás daquela máscara pálida, a única coisa que brilhavam eram seus olhos amarelos, como duas estrelas num céu azul petróleo (A máscara agora assumia a coloração de nosso arredor).

“Eu sei que você os acha lindos” Ele finalmente disse “Mas jamais terá-los completamente.. pode ser apenas uma fração do que realmente sou.. se pudesse, ao menos, reconhecer que isso é melhor do que qualquer outra coisa que experienciará em toda sua vida..”

Eu sabia que no fundo, aquela pose.. aquela pretensão e orgulho de imperador, não passavam de fachada. Era por isso que, sem sua máscara, não era ninguém. Era ela quem tornava seus olhos tão poderosos.. se ao menos eu pudesse acabar com aquela farça...

“Tudo bem.”

“O que disse?” Ele retrucou, levemente surpreso.

“Tudo bem, eu aceito… finalmente compreendo”

“Não pode estar falando a verdade.. eu te conheço bem suficiente, o que está tramando?”

“Nada” Comecei a me levantar mais uma vez, ainda que lentamente “Se me conhecesse o suficiente, saberia que estou falando a verdade”

“Não é possível.. não tão facil assim… prove-me, ao menos que diz a verdade”

Eu sentia seus olhos tremerem por detrás da máscara. Aquelas duas chamas amareladas e incandescentes oscilavam como se o vento estivesse lutando por apagá-las.

“Permita-me” Disse calmamente, agora em pé, com minhas mãos em direção do seu pescoço e meu olhar, em sua boca

A tensão dele não era só perceptível como eu podia realmente senti-la, mesmo antes de tocá-lo. Foi só então nesse momento de vulnerabilidade que eu vi o momento certo. Retirei sua máscara com força para revelar a face que tanto prezava por esconder - Os olhos entraram em violenta combustão e, se por um momento tornaram-se mais brilhantes do que nunca, no próximo já estavam impotentes e desabados, escondidos sob aquelas pálpebras deformadas.


XII


Estava exausto. Mais um dia de trabalho, mais um dia de vazio existencial. Tinha agora que voltar para casa, jantar para então repetir o ciclo novamente amanhã. Olhou aos céus.. cruzeiro do sul ou órion? Qual lhe guiaria para o caminho de casa? Estava confuso, cansado.. não lembrava dessa circunstância trivial. Sabia que uma constelação o conduziria para casa, mas a outra o levaria para caminhos tortuosos e distantes. Mediante tal dúvida, indagou-se finalmente se não seria melhor continuar sem olhar para o céu.

“Está perdido novamente, Victor?”

Victor espantou-se ao ouvir a voz metálica que vinha do chão.. mesmo sem ver, sabia a quem pertencia... e seu pai o dissera que deveria tomar cuidado com criaturas como aquela. Após um leve tremor da terra, a pequena criatura emergiu do chão. Um homúnculo sorridente olhou-me com aqueles olhos mais humanos que os meus.

“Não sabes ainda que o segredo está embaixo e não em cima..? Observa como eu te acho com facilidade, te surpreendo com a minha presença enquanto você olha com dificuldade aos céus e fica perdido na previsibilidade do zodíaco.” Sorriu.

As minúsculas mãos daquela criatura cerravam com força algo que Victor julgou ser precioso.. algum tipo de matéria primordial, talvez. Não conseguia raciocinar muito bem, pensava apenas agora em comida, cama e como chegar até esses dois elementos.

“Eu sei que o você quer; você sabe que eu sei, não sabe?” Sorriu mais uma vez “É muito mais precioso que qualquer preceito astrológico e astronômico."

“Na verdade…… eu só quero dormir.” Victor finalmente respondeu, com uma cadência de um morto-vivo

O homúnculo espantou-se. Como um ser humano poderia ser tão imbecil a ponto de ignorar o grande segredo da vida, contido em suas pequenas mãos? Que espécie imperfeita e triste, concluiu.


XIII


“O caminho do sucesso é calcado em falhas”

Digitei e arrastei a frase para baixo do meu sorriso em uma selfie impecavelmente tirada. Estava vestindo meu jaleco, no banheiro do hospital e… pronto. A mensagem foi enviada para meus 451 seguidores lerem.. É uma relembrança que todos precisam ter de tempos em tempos.. embora tão banal que poderia dizer que toda escrita que escrevi nas estrelas está pautada nessa mesma frase. Acima da escrivaninha, o retrato desgastado de meu avô paterno, que trabalhava em uma mina de carvão, nunca me deixava esquecer.

“Heimarmene!” Meu pai me chamou de seu quarto “Trata de acordar seu irmãozinho, ele está atrasado!”

Levantei da cadeira e alonguei-me. Não gostava muito de descer e violar o quarto do meu irmão, porém algumas vezes era necessário lhe lembrar da realidade que não consegue aceitar.