Janelas

Atualizado: 6 de ago. de 2021

I


Naquele agonizante momento em que batalhava por ar, olhei para si e encontrei paz. A máscara que então me limitava diariamente passa a servir de amparo para que eu consiga sustentar-me e vislumbrar um glimpse da eternidade da psique humana. Durante essa reflexão espiritual, toda aquela dinâmica exposta perdia sentido. Aqueles que discutiam sobre política, economia ou aspectos da sociedade que julgavam ser capazes de argumentar, vão se fragmentando lentamente e dissolvendo-se em sua insignificância perante a imensidão do que estava presenciando. Por um momento, o concreto dilui-se em etéreo e o abstrato edifica-se gradativamente em minha frente, como se strokes gentis, agora envolvendo diferentes tons arroxeados com um dourado salpicado, fossem se desenvolvendo diante dos meus olhos. Irrompe-se então, um fluxo constante do divino, envolvendo agora todo o cenário e o roxo se desenvolve em púrpura e o ouro se desdobra em branco, e o branco tudo envolve até não sobrar nada mais que o branco. E só então percebi que a vida poderia ser branca.

Então, sufocado. Finalmente, conseguiram, quebraram-me. Como um último refúgio para a minha sanidade, olhei-me no espelho de moldura desbotada. Meus olhos castanhos, eternos e cansados fitavam-se em uma busca por uma resposta. Sem esperança. Agora mesmo tentam desabafar uma lágrima. Não conseguem. Presos, enfim, sufocados. Antes de cederem à minha última loucura, vagam de um ponto a outro, tentando ancorar-se em algum lugar. Cílios, orelhas, boca, clavícula, braços, ombro… o ombro que costumava sustentar o peso do mundo, do meu mundo, do nosso Mundo. Agora, enfraquecido, desliza à medida que os olhos tentam fincar suas garras nele... sua porção inferior agora desce pelos braços lívidos, até que finalmente permite-se escorrer ao antebraço. A realização era clara. Estava morrendo, se não estivesse já morto e não percebera.

Quando dou-me conta, minhas costas já estão fundidas com a parede do banheiro e agora afundam-se lentamente em direção ao cômodo adjacente. Apesar do transcorrer simultâneo, nesse estado, me permito dissecar cada aspecto e análisa-lo separadamente, sem perder cada detalhe da unidade e do todo.


II


“O universo sempre conspira a seu favor”. Esse era seu lema. Por isso, quando sonhava com qualquer ideia relativamente positiva, por mais que as chances daquele evento acontecer sejam remotas, apostava todas as suas esperanças. De fato, embora os sonhos sejam uma janela para a realidade infinita da psique, é necessário também saber interpretá-los… que simbologias será que carregam aquelas fantasias que nosso cérebro, por um acaso (ou não), deu-se o luxo de guardar em sua memória…

“Deixe-me dizer uma coisa, meu filho” Disse solenemente a voz de Deus “Se manter sua fé, esse teu desejo será concretizado”

Roberto olhou para o céu e agradeceu. Fechou a janela rústica que tinha em sua cozinha, a única janela desse cômodo, e acordou com um sorriso no rosto. “Nunca tive tanta certeza do meu destino”, foi o primeiro pensamento que pensativamente pensou ao transitar do plano etéreo dos sonhos para o universo concreto da realidade.

Todas as manhãs, o mesmo ritual. As molas gastas do seu colchão sempre tinham aquele mesmo privilégio de presenciar ineditamente aquela experiência transcendental de Roberto. E sempre também comprimiam-se nos mesmos pontos visto que Roberto levantava-se de maneira igual todos os dias. Depois do teto, a próxima coisa que visualizava era si mesmo, visto que havia um grande espelho contra o lado direito do qual se levantava. Visualizou também seu sorriso, evento esse que reforçou mais ainda sua felicidade. Calçou suas pantufas de lã azuladas e seguiu para o corredor com o esplendor do seu roupão também azulado. Como de costume, andava como um ser majestoso em seu percurso à cozinha. As plantas curvando-se quase imperceptivelmente, saudavam sua presença ao longo da sua trajetória real. Se me perguntassem ou a qualquer outra pessoa se aquelas plantas realmente estavam se curvando, diria que não. Porém, pouco importava se Roberto as via assim.. era a sua realidade, então que importava a interpretação imperfeita dos outros seres?

Chegando à mesa, sentava na sua velha cadeira e cortava perfeitamente seu pão, de forma que esse, meticulosamente, dividia-se em duas canoas simétricas, prontas para receber a manteiga daquele pote de metal alaranjado que habitava o mesmo canto de sua mesa. Levou à boca e mastigou lentamente após duas pinceladas geniais naquelas metades do seu pão de cada dia, que lhe foi dado pelo seu próprio suor. Estava então totalmente completo, como estivesse restaurado o eixo perdido que ligava o paraíso à Terra. Curiosamente, essa restauração ocorria, como já foi dito, toda a manhã, como todo os mesmos passos daquela preparação a um novo dia. O que significa, também, que em algum momento tudo que foi feito foi religiosamente desfeito em alguma porção do dia. Roberto não se incomodava com isso. Aliás, gostava, já que podia todo dia reviver sua grandiosidade ao reviver aquela cena. A janela de vidro rústica da sua cozinha, agora fechada, mostrava a ele o grande dia que viria pela frente, denunciado pela ausência de nuvens naquele céu azulado de primavera. Foi a inspiração que precisava para levantar-se, trocar-se e colocar sua máscara para então sair de casa e enfrentar os obstáculos que o cosmo o reservou para aquele dia. Não antes de ir até sua janela e abri-la, é claro.


III


Quando fechou a porta de casa, notou com felicidade que um mendigo ornamentava hoje a sua calçada. Roberto sempre gostou de oportunidades para ajudar o próximo, visto que tinha uma fonte para contrapor suas realidades e perceber quão bom afortunado era. A forma interpessoal oposta disso, é a violência; porém, Roberto sendo a pessoa que é, tinha aversão a essa ação. Por isso, contentava-se em fazer o bem. Enquanto caminhava em direção ao homem sentado com olhos semicerrados que dirigiam-se à rua, lembrou-se por um momento o dia em que, tendo a oportunidade de causar mal a outro indivíduo, tomou a sábia decisão de não fazê-lo. Sentiu-se, naquele dia, uma sensação de imenso poder, como se fosse o imperador daquele instante que, embora pequeno, configurava um universo para os envolvidos e por isso era tão impactante.

“Bom dia” Disse, forçando o olhar do mendigo em sua direção “Aqui está, para seu café da manhã”

E, tirando de um dos bolsos de sua calça cetim, colocou despretensiosamente sua nota de dois reais no colo do mendigo, como se um raio de luz.. não, um raio de esperança, atingira levemente o colo daquele ser. Antes que esse pudesse reagir, Roberto pôs a andar novamente, sem ver sequer a expressão daquele outro homem que, a esse ponto, provavelmente estava completamente enrubescido. Como era grato por essas oportunidades de exercer o bem… era tão satisfatório quanto uma boa refeição. Tratava-se de um momento para demonstrar ao mundo sua coerência também! Um homem de sua posição não poderia agir diferentemente, pensava. A igualdade social era um assunto importante para si, tanto que viu aquele pequeno gesto como um pequeno tijolo que havia colocado nessa grande parede que vêm sendo erguida desde o tempo da Grécia clássica. Via no mendigo como um cidadão em potencial, que não tinha acesso a oportunidades como ele teve… era sua obrigação moral, portanto, dar-lhe aquele dinheiro. Outra opção simplesmente não existia.


IV


Ela chegou à estação que objetivara com toda aquela viagem. Saiu do metrô, subiu as escadas ao meio daquele comboio humano e foi em direção ao salão. Eram apenas quatro quadras dali então, por mais que odiasse, pois se a caminhar. Porque mais que odiar caminhar entre eles, odiava também estar entre eles esperando um motorista. A passos largos, evitava o contato (ou a mera aproximação) com qualquer transeunte daquele bairro; olhava para o chão a evitar qualquer contato visual, porém quando aparecia em seu campo de visão um pé de um morador de rua ou o segmento de algum animal abandonado, tornava a desviar o para o alto. Ocupava-se então, a caminhar olhando para aquelas janelas abandonadas e desalmadas. Em uma delas, nota uma jovem melancolicamente sorrindo e olhando à distância, perdida em sonhos e ilusões, julgou, encarando na orla um oceano de frustrações e desencantos à espera.

Passou a reduzir os passos até que parou e continuou a encarar aquela moça. O que tinha de tão peculiar naquele olhar desprovido de qualquer emoção humana? Ou melhor, de familiar? Incomodou-se porque sentiu-se retratada naquela feição. Riu internamente desse pensamento e voltou a andar e direcionar o olhar àquela calçada nojenta da qual submetia o necessário desgaste da sua cara bota de couro. Como viviam naquele ambiente sem se sentir constantemente humilhados e repugnados pela sua própria existência era algo que não conseguia nem começar a imaginar ou entender.

O sinal, aberto, fê-la parar por alguns instantes. Dois homens daquele bairro, ao seu lado, conversavam sobre a validade do aborto enquanto também esperavam sua vez de andar. O olhar, da rua, direciona-se aos homens e com certo asco, revira-os de volta para a rua. Queria que abrisse logo o semáforo para que não precisasse gastar qualquer milímetro a mais de energia dedicada a tolerar a presença daqueles seres. E que demora. Olhou novamente e observou o brilho verde do sinal sendo entremeado por aquela conversa pomposa de dois reis do mundo decidindo como todos deveriam viver de acordo com sua moral. Por um momento viu a rua vazia e julgou adequada atravessá-la. Estendeu a perna direita em sua direção e saltou os olhos ao olhar que mais dois carros vinham rapidamente em sua direção. Julgou não conseguir atravessar a tempo. Rangeu os dentes de raiva. “Afinal, não é infanticídio se o indivíduo nem nasceu, não é mesmo?” E ouviu aquela maldita risada arrogante daquele maldito homem. Sentiu os músculos da perna contrairem com força. Lentamente virava seu queixo petrificado de raiva quando viu que os homens começavam a continuar sua caminhada. O sinal, enfim, fechou-se.

Tomada por um nervosismo incessante, aguardou na esquina até que os homens se distanciassem o máximo possível. Quando o sinal estava prestes a abrir novamente, apressou-se para a outra esquina e continuou com sua caminhada num ritmo que atendesse a uma distância segura daquelas pessoas.


V


Ouvi risadas lá fora. A risada de duas vozes pesadas que pareciam ter finalmente ter fechado acordo sobre uma discussão que estavam tendo há muito tempo. Queria sorrir em lembrança da minha juventude, em que discutir tais assuntos com um ar solene e cheio de razão, por alguma inexplicável razão, constituia-se como uma das necessidades mais básicas do ser. Porém, não consegui. Estava agora completamente deitado e desmembrado no chão. Pela pequena janela do banheiro, o pôr do sol me incomodava. Sabia que logo viria a noite e eu teria queimado mais um dia da minha existência por nada.

O nariz repleto de cinzas passou-se a coçar e momentaneamente envergonhei-me com minha própria incapacidade de coçá-lo. Convenci-me então que era melhor sentir aquela sensação incômoda do que não sentir nada além do triste frio e úmido do teto do banheiro, que agora encarava a minha própria essência. A voz em minha cabeça, agora tão esvaida, retirava-se agora gradativamente e abandonava-me em minha solidão. Olhava fixadamente como um cadáver para o teto verde-musgo e voltei a pensar em todos aqueles pensamentos que há 3 breves dias jurei nunca mais pensá-los.

As rachaduras do teto, de certa forma, compunham uma moldura irregular para o meu triste retrato. Não como um mero reflexo, mas como o retrato de uma pessoa que eu fui ou que poderia ver. Parecia olhar-me com certa tristeza.. todas as aqueles desejos e sonhos concretizados e idealizados, no futuro e no passado, culminaram para esse momento. Era sobre isso que trocávamos olhares naquele momento. Nomes de filósofos e autoridades ecoavam em minha cabeça, na medida que aqueles dois homens sustentavam suas opiniões e afirmavam com alegria e elegância percepções objetivas e vazias sobre a realidade. Foi nesse momento, e somente nesse momento, que sustentei meu decrépito sorriso. "Pelo menos não sou miserável como eles".

E morri.


VI


Roberto, injustiçado pelas atuais circunstâncias do destino, mexe a pequena colher de prata no seu copo americano de chá. "Por que ela não me ama?" O pensamento era vestido de melancolia, mas encarnado de indignação. Eram sete horas da noite e Roberto estava praticamente sozinho na sua rústica lanchonete, acompanhado de apenas alguns funcionários que faziam os preparos finais para o encerramento do espediente. Mais um dia de sucesso - apesar da pandemia, os negócios nunca iam tão bem. Vai ver o triste desejo humano pelo contato continuo com outros de sua espécie em ambientes agradáveis colateralmente contribuiua para o seu tão sonhado barco, já financiado.

"Deixei algumas pendências pra amanhã, se sinhor não se importar" - Disse Josué com um semi-sorriso (pela sua incapacidade de dar um sorriso completo, em decorrência da ausência de alguns dentes essenciais para tal) amarelo

Roberto normalmente não teria dirigido atenção àquele comentário. Normalmente teria continuado com seu olhar reflexivo direcionado para a rodela de limão siciliano em seu chá de gengibre, segura, mas também à mostra, pelas paredes transparentes do copo. A presença contínua e insistência por uma resposta de Josué, porém, quebrava a normalidade daquele momento. Josué em pé, ele sentado. Josué sorrindo, ele cabisbaixo. Josué... que pendências você diz?

"Faltou lava o chão da cozinha.." - Titubeou Josué, hesitando como se selecionasse as próximas palavras - "mas amanhã venho cedinho e.. passo o pano molhado, sem problemas" - Complementou, rapidamente.

Roberto não tirava o olho de seu copo. O gengibre, colocado estratégicamente naquela bebida para o relaxamento do seu trato gastrointestinal, parecia agora nauseá-lo. Na verdade, todos sabemos que não foi o gengibre, tampouco as palavras de Josué... Tossiu um pouco para recompor-se e olhou para o funcionário.

"Está tudo bem. Vá para a casa. Deixe a chave na fechadura e saia. Não há problemas, gosto de como trabalhas e sei que irá cumprir sua palavra." - Respondeu Roberto, olhando fixada e desniveladamente para o homem em sua frente.

Josué sorriu mais uma vez agradecendo e disse mais algumas palavras que pouco importavam. Notando a abstração total do patrão, deixou o lugar.

A noite finalmente antes de dormir, quando Roberto despiu-se, Josué ficou desempregado.


VII


O ruivo finalmente cessou sua risada, apesar de ainda manter um sorriso, e dirigiu-se ao moreno:

"Sensacional como estávamos falando sobre a mesma coisa o tempo todo, só que usando palavras diferentes!"

"Sim, sim!" Respondeu o moreno também com um certo contentamento e, com a mão dirigindo-se ao seu carro "Vou para casa agora, aceita uma carona?"

"Não, não... tenho que ainda dar uma olhada em alguns assuntos no escritório antes de voltar..."

"E não pode fazer isso em casa?"

"Infelizmente, não"

Apertaram as mãos e separaram-se: Um em direção a seu apartamento localizado em um prédio velho, no centro da cidade e o outro em direção de um arranha-céu negro que cortava elegantemente os céus da cidade.

Sempre achou aquele prédio maravilhoso, embora via-se vulnerável estando ali. Parecia que, ao entrar, assumia uma nova roupa e a realidade do exterior fluidamente molda-se em uma nova realidade, dotada de novas regras e experiências. Sabia muito bem que, lá fora, moravam seus problemas e por isso não se dirigia para qualquer outro lugar e sim fechava as persianas imediatamente ao entrar.


VIII

A Lua cheia, emoldurada pelas nuvens cinzentas no céu negro, ria de sua cara, assim como os outros faziam ao longo dos dias. Porém, se esse lhe dava prazer (Afinal, as provocava de propósito), aquele o deprimia. A dúvida era: por que ria daquela maneira, naquele momento? Será que ria por pena, de todos os infortúnios pelos quais passou? Seria esse o motivo que todos riam com tanta intensidade das suas últimas piadas? Deveria ser.. elas nem eram tão boas assim. Estava cansado de ter que pensar em novas coisas, em novos cenários hipotéticos comicos ou ansiosos - a depender da situação - queria, enfim, renascer com um último ato. Nada drástico, como sempre fez e como as pessoas a seu arredor esperariam que fizesse; mas algo sutil, como a tristeza que agora sentia ao encará-la.

Aquela frente fria que tanto diziam os noticiários parece, agora, rasgar pelos seus ossos. Era tão jovem, mas sentia-se tão exposto, do contrário de que esperariam daquelas figuras confiantes que constituem os personagens principais de sua idade nas novelas. Não bastasse o clima, o próprio pensamento também tinha intensidade de lhe dar calafrios. Na sua velha TV, ao fundo, era transmitido com algumas imperfeições de sinal, os preparativos para a decolagem de um foguete em algum lugar do globo. Se estivesse ouvindo, notaria a expectativa e ânimo com que todos na transmissão aguardavam. E pensar de que, naquela janela de tempo, tudo poderia acontecer: o fracasso catastrófico e explosivo ou o sucesso suave e absoluto - a isso que parecia resumir-se aquele momento.

As nuvens agora a comando do vento, ocultavam parte da Lua, reduzindo seu olhar jocoso a um mero olho que continuava a encarar nosso triste personagem. O abandono da Lua, embora constituisse um alívio, significava também, abandono. E isso não poderia tolerar.

Entrou para dentro da casa e com um tapa da mão esquerda e um coice do pé direito, fechou estrondosamente as portas de madeira envidraçadas da sacada em que se encontrava, de forma que estremecessem e cessassem a corrente de vento que corria pelos seus vãos. Deu-se de cara então, com a TV e sua contagem regressiva para o lançamento, como se fazem no fim de um ano.

"Dez!" - Olhou então ao pequeno estrago fizera com sua impulsividade.. uma parte da moldura da porta havia sido fraturada.

"Nove!" - Como a fratura que sofrera em seu úmero esquerdo, o incapacitando de utilizar ou sentir com esse braço.

"Oito!" - Olhou também para a carência que desenvolveu a partir daí.. a carência física e psicológica.

"Sete" - Seria por pena que riam dos meus gracejos?

"Seis" - Lágrimas sutis revelam o feliz véu sobre a triste realidade. Um fracasso, um triste fracasso, um fracasso tão ridículo que estimula o riso ou a empatia dissimulada das pessoas mais insensíveis.

"Cinco" - A porta envidraçada abre com um tranco e o vento represado vingativamente empurra tudo que vê na frente. Impossivelmente, empurra também o nosso personagem a medida que lança suas costas para frente.

"Quatro" - O vento com seu braço envolve seus braços em um abraço. São jogados para cima enquanto seu corpo tomba para baixo...

"Três" - Estaria ele agora sentindo alguma sensação no braço que perdera a sensibilidade?

"Dois" - Suas pernas contorcem-se de forma que fiquem aos ares, assim como seus braços.

Um sentimento eterno de liberdade interior é sucedido por uma prisão pontual e insignificante no exterior.


IX

O sol ainda forte das 14h queimava meu rosto com certa intensidade. Graças a ele, era possível ver a poeira do ar pairando sobre a minha mesa. Tomei um gole de café preto e pensei que, se aquilo denunciava relativa falta de higiene, também dava um charme velho-oeste a esse lugar que ja era rústico e vazio.

Com a mão direita segurando o copo de café, debrucei com o braço esquerdo sobre a janela ao meu lado. Tentei não olhar diretamente ao sol, então naturalmente desviei os olhos para a igreja abandonada ao topo da colina. Ainda conseguia produzir certo brilho em seus tijolos vermelhos e despedaçados, apesar da sua exposição à erosão do vento e do tempo.

Imediatamente imagino-me, com meus óculos escuros - à la Exterminador do Futuro -, atravessando sua entrada. Incrível a capacidade da mente de restaurá-la e preencher seus espaços vazios com detalhes que poderiam, mas muito provavel que não, estar lá... ao menos não dessa forma. O padre, muito bem vestido, dava encaminhamento ao final da missa. Os fiéis em seus bancos, porém, com certa ansia em sair daquele ambiente sagrado e voltar para suas obrigações sociais, encontravam-se todos mal vestidos. Não mal vestidos, mal vestidos, mas mal vestidos para os padrões de hoje e normalmente vestidos para os padrões da época, considerando sua classe social de camponeses que, só Deus sabe, levarão os ensinamentos de hoje para a casa ou os descartarão um pé após a saída.

Eu, como um fantasma robótico (afinal, eu tenho também tenho que me manter fiel à minha fantasia de Arnold Schwarzenegger), acompanho o padre que, com certa satisfação, agora se retirava ao seu quarto ao fundo da igreja. Aqueles corredores da igreja eram certamente belos em sua próprio arquitetura barroca e eu me perguntava se não fossem mais adequados para meditação e contemplação do que no próprio presbitério daquele lugar.

"Está satisfeito?" O padre perguntou-me sem olhar nos meus olhos

Surpreendi-me. Pensei que eu era, de fato, invisível e o padre dirigia-me a palavra como se pudesse me ver dentro da minha própria imaginação. Ele virou-se e repetiu:

"Senhor, você está satisfeito?"

Finalmente aproximou-se e colocou a mão em meu ombro direito e disse: "Senhor?"

Foi então que eu imediatamente voltei a si e tornei a olhar rapidamente ao meu lado e lá estava o velho garçom do estabelecimento com seus olhos arregalados, jocosos ou simplesmente encantados - não sei dizer. Fiquei o encarando e notei como ele agora estava mais sombrio - e, a padaria como um todo, estava mais escura; estava, de fato, bem mal iluminada com algumas luzes incandescentes aqui e e ali.. Mantive essa imersão por uns três segundos (Que transcorreram, a mim, como três horas) até o vento da janela finalmente me acordar para a realidade com um leve sopro em meus cabelos. Foi só aí que consegui gaguejar.. "Sim..... estou. Me veja a cona, por favor."

Virou-se prontamente e foi em direção ao balcão. Senti-me nauseado. Era como se aquele homem, em um momento de vulnerabilidade, tivesse acessado o meu íntimo sem que ele sequer soubesse. Ele era, de fato, o padre e estava realmente participando ativamente da minha encenação. Eu não o imaginei, ele entrou na minha imaginação! Foi então que dei-me conta de que entraria no ciclo das minhas paranoias de perseguição em breve. Rapidamente, alcancei meu bolso com a mão esquerda e comecei a procurar minha carteira. Afinal, eu sentia mesmo sem ver o olhar daquele homem que acabou de ver as minhas maiores inseguranças, meu passado. Eu não estava achando. Minhas mãos começaram a ficar trêmulas. Sentia-me afobado. Podia ver que aquele homem estava formulando planos para aproveitar-se da minha ingenuidade, apesar da pessoa segura que eu lutei para transparecer ser. Com uma lágrima prestes a sair do meu olho e praticamente sem ar, achei, tirei, abri e olhei a carteira.

Estava lá, meu porto seguro. Um desenho da lua e o sol, as cores do mundo e o negro da noite e o ar preenchendo aqueles espaços aparentemente contraditórios. Tudo com um toque infantil da minha filha. Um suspiro. O nexo da realidade restaurou-se na medida que meu interior conectou-se com o exterior, bem quando o garçom entregou-me a conta.

"Aqui está" Entreguei-lhe uma nota de dez reais "Fique com o troco"

Ele me agradeceu. Levantei-me.

"Nossa, faz frio agora!" Ele disse e fechou a janela.

Noto que o sol, agora, estava se pondo sem que eu mal percebesse para onde foi aquele tempo. Com o vento violentamente chacoalhando a vidraça da janela, como se quisesse voltar ao estabelecimento, decidi voltar para a casa.


X

Antes de seu último dia, o trágico dia da realização, ele sempre teve prazer em ser o palhaço. Sempre tinha um prazer em fazer outros sorrirem. Afinal, essa era sua função social. Fora escolhida ou atribuida? Que importa? O fato é que era e a partir de então teria que dar seu jeito para obedecê-la. Da mesma forma que não sabia e que não importava saber se eram lágrimas ou pingos de chuva que escorriam na sua face. O fato é que tinham gotas de água em sua face. E teria que secá-las quando chegasse em casa. Apenas isso e vida que segue.

Depois de aguardar e pegar o ônibus certo, esperou cerca de 45 minutos, desceu no ponto mais perto de casa. Andou uns 4 quarteirões, subiu ao apartamento, tomou banho e finalmente secou as gotas, sejam elas do banho, da chuva ou de sua tristeza. Era indiferente se no fim elas fossem ao mesmo lugar, à toalha que as secava. Sentia-se vulnerável, tinha a impressão que estavam olhando seu corpo (e sua alma) agora nu. Num ímpeto, voltou a cabeça para a janela que estava aberta. O único som que ouvia era o da TV que deixou ligada. Andou até a sacada e percebeu. Era a Lua que o encarava com um sorriso.


XI

"Que casa linda mamãe!" A criança, pulando, exclamou!

"Sim, querida, realmente é... mas olhe." E apontou.

Pela janela enfeitada, atrás de um lindo deck de carvalho, que recebia um maravilhoso jardim, gritavam ferozmente duas pessoas, uma com a outra.

Foi assim que aprendeu o poder do contraste.


XII


Estava, contudo, otimista. Não foi a primeira vez que fizera o mal àlguém para aliviar suas próprias angústias. Nesse caso, específico caso, considerou que nem mal fizera. Era só um fato da vida, algumas pessoas tinham que ir para outras entrarem. É o fluxo natural da vida, do universo e de toda a realidade além disso. Assim, abria uma infinitude de possibilidades: para ambos. Foi com esse último e confortante pensamento que Roberto adormeceu naquele dia.


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